As primeiras contrações inicaram no sábado, dia 24 e chegavam a duas ou três por dia. Eram indolores, apenas sentia a barriga ficar muito dura por alguns segundos.
Porém na madrugada do dia 29/04, comecei a sentir contrações doloridas, como uma cólica, por volta das três horas da manhã. Entre uma cochilada e outra percebi que elas aumentavam e lá pelas cinco resolvi me manter acordadada e começar a contar. Elas aconteciam de 20 em 20 minutos e com intensidade e dor maiores.
O Luciano acordou, relatei oque estava acontecendo e ele começou a acompanhar comigo a contagem. 6:30 horas da manhã liguei para a médica e ela solicitou que eu fosse até a maternidade (Clínica Jane) para fazer uma avaliação e dependendo do resultado entrar em contato com ela novamente. Já liguei para minha mãe, para que viesse com meu pai, pois tinha certeza que estava chegando a hora da Julinha nascer.
Chegamos na clínica logo depois da 7 h; após avaliação da médica plantonista, descobrimos que eu estava com dois dedos de dilatação e as contrações a partir daí se intensificaram. Fui encaminhada para a sala de parto humanizado, que mais parecia um quarto do que uma sala de parto. Tinha banheira, bola de fisioterapia, ante-sala.
Minha médica, Dra. Alzira Haberbeck, chegou as 10 h, quando eu ainda estava com dois dedos de dilatação e contrações em torno de 10 em 10 minutos; Minha mãe chegou as 11 horas; ambas, mais o Luciano ficaram ao meu lado me dando segurança e conforto.
As 12 h estava com cinco dedos de dilatação; as 14 horas com sete dedos e contrações de 5 em 5 minutos;
Durante todo esse tempo, a Dra. Alzira monitorava as contrações, meus sinais vitais, o coração da Julia, explicando cada evento; até então toda a dor era suportável; e eu fixei meu pensamento no conselho que havia ganhado de uma grande amiga: "que eu encarasse cada contração, não como uma dor, mas como um passo mais próximo da minha filha".
As 15:15 h minha médica rompeu a bolsa e a partir daí tudo foi muito intenso: as contraçãoes aumentaram significativamente, com intervalos que só me permitiam encher os pulmões de ar para enfrentar a dor;
vendo que a dor ia além de meus limites, eu dizia para minha médica que não estava suportando tanta dor, ela perguntou-me se queria uma anestesia; eu concordei sem pensar duas vezes.
Subimos para o centro cirúrgico, onde seria mais seguro, recebi a anestesia, que na verdade não elimina a dor. Continuei sentindo as contrações, que nesse momento já me faziam involuntariamente fazer força para a Julia nascer, porém com um pouco menos de dor, o que possibilitou eu me concentar melhor no trabalho de parto.
Quando estava sendo transferida da sala de parto para o centro cirúrgico, ao sentar na cadeira de rodas senti uma das contrações mais fortes, gritei para todos em minha volta: "minha filha vai nasceeeer aquiiiiiiiiiiiiiii" (rsrs). Lembro como se fosse agora, a cara da equipe toda, olhos arregalados, com aquela interrogação expressa na face. Dra. Alzira verificou e disse que tinhamos tempo. Lá fomos nós pelos corredores, eu tentando ter controle, mas ao meus olhos, chamando uma enorme atenção dos que passavam com gritos ou grunidos tímidos, mais dolorosos.
Estando no centro cirúrgico, recebida a anestesia, em posição de guerra, lá vamos nós.
Como em toda história, há o lado romântico, o dramático e o cômico.
A anestesista e a enfermeira, a pedido da médica e com minha autorização foram me ajudar. Com os braços esticados, elas faziam força na minha barriga, atrás da Julia, empurrando-a para fora, juntamente comigo fazendo a força para expulsão. Mas era uma situação encomoda e eu comecei a pedir para sair, falei umas três vezes: "sai, sai, sai". Elas interpretaram que era para a Julia sair. (rsrs). Não! Era para elas pararem de fazer isso; como não me entendiam, dei uma cotovelada na anestesista, só assim, ela entedeu com quem eu estava falando.
É claro que não era minha intenção, mas como falei é tudo intenso ao extremo; depois me envergonhei, pedi desculpas e permiti que ajudassem novamente, afinal, eu queria que o nascimento acontecesse logo. E essa história se repetiu por umas cinco vezes.
Minha mãe estava na sala de espera ao lado, ouvindo tudo; e o Luciano junto comigo, logo atrás da mesa, me dando apoio e acompanhando angustiado cada movimento do trabalho de parto.
Imagine, tudo isso aconteceu nuns 20 minutos, que pareciam intermináveis.
É claro, que me arrependi NA HORA diante de tanta dor de ter escolhido parto normal.
Mas de repente, comecei a sentir a cabeça da Julia passando pelo canal vaginal, logo depois todo o corpinho, as perninhas e em segundos, lá estava ela nas mãos da médica; tão pequena, frágil, toda enrugadinha, mas linda, encantadora, as 15:56 horas.
A levaram para aspirar as narinas e medir seus sinais; ouvi um chorinho tão indefeso, tão fraquinho e ao mesmo tempo tão forte, capaz de me fazer chorar. E de repente, lá estava ela toda enrolada num pano, no meu peito e mamando, com a mão agarrada no meu dedo. Como se também estivesse esperando anciosamente por esse momento.
Depois a levaram para tomar banho, que foi todo acompanhado pelo Luciano; enquanto terminávamos o parto: retirada da placenta, limpeza, pontos.
Foi tão mágico, que achei que ficaria acabada, desmaiada; mas não, fiquei conversando com a médica, como se nada tivesse acontecido, sem dores, sem contrações, sem cansaço; feliz, emocionada, curiosa, espiando pela fresta da porta entreaberta a Julia tomando banho; minha mãe e minha grande amiga Paula do lado de fora, vendo a Julia por um vidro e me dando tchauzinho;
De repente me dei conta que tinha música na sala, estava tocando Itapema FM (Rita Lee e Men at work), o que nos fez rir;
Quando tudo estava pronto, fui transferida para uma maca, trouxeram a Julia, que já ficou ao meu lado, coladinha no meu rosto e fomos para o nosso quarto.
Relembrar cada minuto vivido no dia 29/04, dá uma emoção tão forte, me faz encher os olhos de lágrimas e o coração transbordar de felicidade e orgulho.
E quer saber, hoje eu faria tudo novamente, até mesmo o parto normal. Pouco mais de 10 horas depois do parto eu já estava trocando a fralda da Julia; tomando banho sozinha; saindo da cama; amamentando a cada três horas.
Acredito que para mim e para ela foi de extrema importância, tudo aconteceu como a natureza quer que aconteça; tivemos tempo de nos preparar: o meu corpo para recebê-la e ela para vir a esse mundo tão diferente do útero materno.
Desde as 15:56 horas do dia 29/04 não nos desgrudamos mais; passamos quase que a ser uma só, nos confundimos. Eu por necessitar estar ao lado dela, querer amá-la, protegê-la; ela por necessitar de mim, do meu amor e da minha proteção. Foi a partir daí que senti que agora sou verdadeiramente uma mulher, uma mulher madura, adulta e que tenho a minha própria família.



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